• Pulseiras do sexo: “o pulso ainda pulsa”

    Posted on abril 6, 2010 by in Opinião

    “Pera, uva, maçã ou salada mista?” Na minha geração, há uns vinte anos atrás, a brincadeira mais ousada e “polêmica” era a tal da salada mista, que de repente já aguçava, inconscientemente, a libido de pré-adolescentes. Contudo, não passava, em termos práticos, de uma estratégia pueril de suprir as carências e tentar uma aproximação daquela paquera, que se espreitava nos quarteirões próximos ou na escola. Além disso, como era uma realização entre colegas, não se estendia a “estranhos” nem acarretava maior exposição. Bem diferente do que testemunhamos nos dias de hoje.

    Não posso desprezar, é claro, a força que move os adolescentes: o grupo, ou melhor, “a galera”. De acordo com as sábias e apropriadas palavras do filósofo Rubem Alves, os adolescentes andam sempre em grupo e falam todos ao mesmo tempo como maritacas, não importando o lugar aonde vão, e sim a agitação enquanto estão indo. Portanto, se “a onda” é usar as tais pulseiras, a maioria é tendenciosa a aderir à moda. Até porque, na cabeça dos jovens mais esclarecidos, com base familiar, tudo não passa de “status” e autoafirmação. Eles podem até usar as pulseiras, mas isso não significa que estejam dispostos a aplicar efetivamente as regras. Para eles, é uma questão de se dar ao respeito. Habilito-me a declarar: estão equivocados. Porque me parecem tão vulneráveis a sofrer violência sexual quanto aqueles que “estão pra jogo” ou lamentavelmente menos monitorados pelos pais.

    Não sou tola, sei que proibir não é funcional quando se trata de adolescentes. Por isso, em exercício consciente do magistério, sinto-me obrigada a alertá-los: as pulseiras do sexo representam em si um texto não verbal (claro e conciso) que convida qualquer pessoa, mesmo desconhecida, a continuar o jogo. Basta dominar o código. Emprego a forma verbal “continuar”, pois quem expõe tal código no pulso já deu início à “brincadeira”, só está à espera de um parceiro ou adversário. E aí vale tudo: bom senso, senso de humor, licença, invasão, respeito, agressão. É mais válida a pergunta: uma brincadeira inconsequente vale uma vida? Tudo é uma questão de valor.

    Quer saber? “Bandeira branca, amor!” Quero paz. Prefiro as cores em outros contextos. E aprecio todas. É a partir delas que vejo o mundo, decoro minha casa, escrevo no quadro, escolho minha maquiagem, leio pessoas, interpreto obras de arte, demonstro meu estado de espírito, levo e relevo a vida.

    • Fico roxa de raiva quando não consigo persuadir o adolescente, lançando mão de argumentos sólidos favoráveis ao seu bem estar.
    • Acho graça quando as meninas aparecem com esmaltes na cor verde ou amarela.
    • O azul do uniforme, curiosamente, ainda promove um diálogo com o meu tempo de colegial.
    • Adoraria ver essa galera bebendo um suco de laranja, em vez de refrigerante.
    • Para os adolescentes, o preto não é só a revelação de um gosto musical, mas também um tom de protesto.
    • Muitos ficam vermelhos quando envergonhados.
    • E muitas meninas ainda sonham com um príncipe encantado e uma vida cor-de-rosa.
    • Ah! O sonho dourado

    (Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 06 de abril de 2010)

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5 Responsesso far.

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Juliana Izabeli , Jorge Luís Marques. Jorge Luís Marques said: New post: Pulseiras do sexo: “o pulso ainda pulsa” http://cli.gs/9Ema5 #amerela #exo #extupro [...]

  2. [...] e privada do Rio de Janeiro. Com licenciatura em Letras pela UFRJ, a autora escreve para o site Impressão Final. Leia também: Enviar | Recomendar a um amigo |  Imprimir [...]

  3. BETE FURTADO disse:

    Juju, se antes eu já a admirava e tinha por você um grande carinho, agora que descobri seus textos, me sinto orgulhosa de fazer parte, ainda que bem diminuta, do seu círculo de amizades. Sei que é uma frase esvaziada, de tanto que usada, mas ela é você, em toda a sua essência: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.Ainda hei de entrar na Travessa para buscar num stand o mais recente livro da escritora Juliana Bulhões. Beijos carinhosos e não desista!!!!!

  4. rafaela disse:

    eu nem sei qur cor traduziria:
    para o mundo, que eu quero descer!

    [melhor eu ficar invisível.]

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