“Pera, uva, maçã ou salada mista?” Na minha geração, há uns vinte anos atrás, a brincadeira mais ousada e “polêmica” era a tal da salada mista, que de repente já aguçava, inconscientemente, a libido de pré-adolescentes. Contudo, não passava, em termos práticos, de uma estratégia pueril de suprir as carências e tentar uma aproximação daquela paquera, que se espreitava nos quarteirões próximos ou na escola. Além disso, como era uma realização entre colegas, não se estendia a “estranhos” nem acarretava maior exposição. Bem diferente do que testemunhamos nos dias de hoje.
Não posso desprezar, é claro, a força que move os adolescentes: o grupo, ou melhor, “a galera”. De acordo com as sábias e apropriadas palavras do filósofo Rubem Alves, os adolescentes andam sempre em grupo e falam todos ao mesmo tempo como maritacas, não importando o lugar aonde vão, e sim a agitação enquanto estão indo. Portanto, se “a onda” é usar as tais pulseiras, a maioria é tendenciosa a aderir à moda. Até porque, na cabeça dos jovens mais esclarecidos, com base familiar, tudo não passa de “status” e autoafirmação. Eles podem até usar as pulseiras, mas isso não significa que estejam dispostos a aplicar efetivamente as regras. Para eles, é uma questão de se dar ao respeito. Habilito-me a declarar: estão equivocados. Porque me parecem tão vulneráveis a sofrer violência sexual quanto aqueles que “estão pra jogo” ou lamentavelmente menos monitorados pelos pais.
Não sou tola, sei que proibir não é funcional quando se trata de adolescentes. Por isso, em exercício consciente do magistério, sinto-me obrigada a alertá-los: as pulseiras do sexo representam em si um texto não verbal (claro e conciso) que convida qualquer pessoa, mesmo desconhecida, a continuar o jogo. Basta dominar o código. Emprego a forma verbal “continuar”, pois quem expõe tal código no pulso já deu início à “brincadeira”, só está à espera de um parceiro ou adversário. E aí vale tudo: bom senso, senso de humor, licença, invasão, respeito, agressão. É mais válida a pergunta: uma brincadeira inconsequente vale uma vida? Tudo é uma questão de valor.
Quer saber? “Bandeira branca, amor!” Quero paz. Prefiro as cores em outros contextos. E aprecio todas. É a partir delas que vejo o mundo, decoro minha casa, escrevo no quadro, escolho minha maquiagem, leio pessoas, interpreto obras de arte, demonstro meu estado de espírito, levo e relevo a vida.
(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 06 de abril de 2010)
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[...] e privada do Rio de Janeiro. Com licenciatura em Letras pela UFRJ, a autora escreve para o site Impressão Final. Leia também: Enviar | Recomendar a um amigo | Imprimir [...]
Juju, se antes eu já a admirava e tinha por você um grande carinho, agora que descobri seus textos, me sinto orgulhosa de fazer parte, ainda que bem diminuta, do seu círculo de amizades. Sei que é uma frase esvaziada, de tanto que usada, mas ela é você, em toda a sua essência: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.Ainda hei de entrar na Travessa para buscar num stand o mais recente livro da escritora Juliana Bulhões. Beijos carinhosos e não desista!!!!!
eu nem sei qur cor traduziria:
para o mundo, que eu quero descer!
[melhor eu ficar invisível.]